Vivemos na era das adaptações de quadrinhos. Sejam histórias de super-heróis ou graphic novels dos mais diversos temas, nunca antes tivemos tantas reinterpretações de histórias em quadrinhos no cinema e na televisão.

De uma forma ou de outra, essas adaptações costumam tomar liberdades criativas em relação ao seu material original. De fato, poucos foram os casos de adaptações quadro a quadro dos quadrinhos para o cinema ou para TV. O caso de maior destaque talvez seja o filme Sin City, que adaptou quase que literalmente a obra de Frank Miller para o cinema, mantendo inclusive o estilo visual do quadrinista na tela.

A mais recente produção dessa onda de adaptações é Polar, filme da Netflix estrelado por Mads Mikkelsen, inspirado em uma graphic novel de mesmo nome publicada pela Dark Horse e escrita pelo quadrinista Víctor Santos. Essencialmente, o trabalho de Santos é muito similar ao Sin City de Miller, com os quadrinista usando ilustrações em preto e branco e uma violência exacerbada.

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Entretanto, quando a Netflix pegou o material de Santos e o adaptou para a tela da TV, o resultado foi uma obra bem diferente da graphic novel original. Na realidade, são poucos os pontos de semelhanças entre as duas obras, de modo que o diretor do filme, Jonas Akerlund, tomou diversas liberdades no momento de adaptação.

Abandonando o estilo visual da graphic novel, o trabalho de Akerlund parece buscar referências em filmes como John Wick, longa de ação que apresenta até mesmo uma história similar à de Polar: ambos os filmes mostram um ex-assassino de aluguel tendo de voltar à ativa, enquanto é caçado por outros assassinos enviados por um homem poderoso. Há até mesmo uma hierarquia de assassinos em ambos os longas, a qual deve ser seguida a risca para que não ocorram confusões maiores nesse mundo violento.

Ao se afastar do material original, Akerlund faz algo no mínimo interessante: ele possibilita que a sua obra sobreviva junto da obra dos quadrinhos sem que as duas necessariamente precisem ser equiparadas. São duas produções distintas, aproximadas apenas por uma premissa básica de um assassino que precisa fazer algo para sobreviver. É uma forma de preservar duas visões diferentes de um mesmo conceito: a visão de Santos exposta nos quadrinhos, cheia de estilismo, e a visão Akerlund, mais limpa e bem adequada ao que o público de um serviço de streaming parece esperar.

O Polar de Akerlund também não é um novo John Wick, pois ambos os filmes seguem caminhos diferentes em suas abordagens, com finais distintos e interações diversas entre seus personagens. O Polar de Akerlund e da Netflix é uma obra própria, e se há uma falha na adaptação, ela vem justamente da expectativa do público em esperar por um Polar fiel aos quadrinhos (ou, talvez, até mesmo esperar por um John Wick que tem Mikkelsen no lugar de Keanu Reeves).

Por falar em Mikkelsen, o próprio ator é responsável por dar uma cara diferente à adaptação da Netflix. Ao viver o protagonista Duncan Vizla, o ator adiciona ao personagem camadas e mais camadas de personalidade que o tornam pouco similar ao anti-herói de sangue frio dos quadrinhos. Mikkelsen transforma Duncan em um personagem redondo, com grande profundidade, e faz isso se adaptando às diferentes necessidades do filme: quando uma cena é mais calma, ele transforma Duncan em um homem bem paciente e civilizado; quando é uma cena de ação, ele não mede esforços em sair por aí com diversas armas na mão e atirando para todos os lados para deter seus inimigos.

Polar se torna uma espécie de lição sobre adaptações em quadrinhos. É um filme que mostra que é possível encontrar novas saídas na forma como se adapta uma obra, independente do fato do material original ter ou não um estilo próprio bastante atraente.

É verdade que, ao abandonar diversas características de estilo da graphic novel, o filme cria para si próprio novos problemas. A direção de Akerlund precisa inventar novas formas de criar imagens tão chocantes quanto às dos quadrinhos, imagens que sejam fortes para que o espectador sinta todo o ambiente violento que toma conta do mundo de Polar.

Felizmente, Akerlund consegue fazer isso em cenas de ação bem coreografadas e com a ajuda de Mikkelsen, cria um filme bastante memorável. Dessa forma, o diretor foge da simples imitação da obra original e cria algo novo, algo que pode fazer parte do mundo atual no qual as remixagens e adaptações livres são predominantes.