Dos últimos anos pra cá, o escritor Stephen King deve estar muito feliz. Em um boom impressionante, Hollywood tem apostado em diversas adaptações de suas obras, seja para o cinema, televisão ou serviços de streaming. Com perdão do trocadilho, estamos realmente diante de um reinado de King, que ganhou força com a adaptação extremamente bem-sucedida de It: A Coisa em 2017, que veio a se tornar o filme de terror com maior bilheteria de todos os tempos. Mas todo reinado tem seu fim. 

A expectativa para 2019 em termos de adaptações de Stephen King era altíssima, especialmente para a Warner Bros. Além do aguardadíssimo segundo filme de It, o estúdio também lançaria Doutor Sono, que continua a história do clássico O Iluminado – e cuja confiança da Warner era imensa, já que o projeto teve sua estreia adiantada de janeiro de 2020 para novembro deste ano, um calendário bem mais generoso. Fora da Warner, King seria adaptado também com o remake de Cemitério Maldito (Paramount) e o criticado Campo do Medo (Netflix). Mas a Warner se deparou com um banho de água fria.

Dorminhoco

Após sua estreia em 7 de novembro, Doutor Sono está caminhando para se tornar um dos (injustos) fracassos de 2019. O filme de Mike Flanagan carrega um orçamento sólido de US$45 milhões, e após críticas positivas e um interesse expressivo (afinal, é a continuação de um dos maiores filmes de terror de todos os tempos), a Warner previa uma estreia acima de US$25 milhões. O longa acabou decepcionando, ficando em segundo lugar (atrás de A Batalha de Midway) com apenas US$14 milhões. Nos mercados internacionais, Doutor Sono trouxe apenas mais US$13 milhões.


Não que a Warner realmente contasse com um grande sucesso. As críticas de Doutor Sono compararam o filme com Blade Runner 2049, no que diz respeito à forma como continua um clássico da década de 80. Infelizmente, o filme de Flanagan também segue o caminho de uma bilheteria fraca, já que tanto o primeiro Blade Runner quanto O Iluminado se encaixam na mesma categoria: não têm legiões de fãs fortes. São filmes de nicho, e para maiores, e que dificilmente teriam a recepção de um Star Wars ou Jurassic Park. Existe um fator nostalgia para parte do público, mas é um nicho específico.

O resultado pode fazer com que a Warner acabe perdendo dinheiro com Doutor Sono, e há ainda mais: o estúdio estava tão confiante no sucesso do longa que já planejava um terceiro filme no universo de O Iluminado. Flanagan revelou ao Cinema Blend que foi contratado para escrever o roteiro de Hallorann, que seria focado no personagem de Carl Lumbly – que serve como grande conselheiro do além para o Dan Torrance de Ewan McGregor. Com a recepção de Doutor Sono, é improvável que vejamos esse filme.

Piada sem graça

Mas Doutor Sono não foi a única decepção. Por mais que tenha feito mais dinheiro nas bilheterias, It: Capítulo 2 certamente não trouxe o resultado esperado pela Warner Bros, principalmente após o estouro do original. O primeiro It trouxe US$700 milhões nas bilheterias mundiais, tornando-se o maior filme de terror de todos os tempos. A expectativa para o segundo filme era enorme, e a ideia é que sequências triunfem sobre o primeiro justamente pelo público já estar conquistado. Mas não foi o que aconteceu.

A segunda parte de It recebeu críticas bem inferiores ao primeiro filme, e com razão. É um filme mais lento, arrastado e excessivamente longo, trocando o medo por risadas e efeitos visuais excessivos. Isso garantiu uma recepção mais fraca para o retorno de Pennywise, que arrecadou US$462 milhões mundialmente. A Warner não perdeu dinheiro aqui, mas é certamente uma decepção perto do primeiro filme.

Será que a onda de Stephen King vai acabar? Na lógica limitada de Hollywood, o problema está com o material, então eu não me surpreenderia com isso. Pelo menos para a Warner Bros, que não teve um bom ano com obras de King.

Uma pena, pois Doutor Sono merecia muito mais.