Está chegando a hora da maior festa da Sétima Arte acontecer! A cerimônia do Oscar 2019, prêmio entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, promete ser uma das mais peculiares de sua história. Seja pela lista de filmes indicados ou todas as polêmias envolvendo a organização do evento, que cortará categorias da transmissão, não tem um anfitrião central e por aí vai.

Neste especial, estudaremos algumas das principais categorias do Oscar 2019. Olhando para cada indicado individualmente para analisar suas chances de vitória e o trabalho no geral que está sendo celebrado em sua respectiva área.

Na quarta parte, analisaremos os indicados para as duas categorias de escrita: Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado.


Quem vai ganhar o Oscar 2019? | Analisando a categoria de Melhor Filme

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Favorita – Deborah Davis e Tony McNamara

No que diz respeito a filmes de época e dramas sobre realeza, A Favorita é muito distinto da maioria, e parte disso reside no roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara. A sátira e o humor negro do texto conferem um caráter quase anacrônico, ao ouvirmos termos escatológicos e chulos que parecem mais naturais de um filme de Judd Apatow do que um drama de época, e é justamente isso que torna o trabalho da dupla tão notável. É uma mistura perfeita entre o caos de uma comédia de humor negro com as intrigas de poder do século XVIII, rendendo diálogos estupendos e reviravoltas fascinantes ao longo da trama, que nunca se perde entre seus 9 atos de história. Pode não ter sido escrito por Yorgos Lanthimos, mas é o tipo de história para seu currículo.

Green Book: O Guia – Nick Vallelonga, Peter Farrelly e Brian Currie

O roteiro de Green Book: O Guia talvez seja o aspecto mais admirável do longa depois das performances de Mahershala Ali e Viggo Mortensen. Não que seja um trabalho perfeito, afinal o texto de Nick Vallelonga, Peter Farrelly e Brian Currie debruça-se sobre clichês e convenções do gênero, além de oferecer um tratamento muito superficial e simplificado para o racismo na década de 60; mas o roteiro tem bons momentos. A maioria das interações entre Tony e o Dr. Shirley resultam em diálogos muito bem escritos, demarcando também a diferença da fala mais coloquial e exaltada de Tony para o discurso correto e formal de Shirley. Um roteiro eficiente, mas que definitivamente não é o melhor da lista.

Fé CorrompidaPaul Schrader

Que milagre a Academia ter lembrado de Fé Corrompida, filmaço de Paul Schrader cuja ausência em mais categorias (Filme, Ator para Ethan Hawke) é duramente sentida. Também é surreal realizar que Schrader, roteirista de Taxi Driver e Touro Indomável, só agora está recebendo sua primeira indicação ao Oscar… No drama dirigido por ele próprio, temos uma narrativa envolvente e movida pela crescente paranóia do padre protagonista, preso em uma linha de raciocínio perigosa que o faz questionar se a Humanidade é realmente merecedora de habitar a Terra – tal como analisa a questão ambientalista de forma original e instigante. Completamente imprevisível e fascinante, Fé Corrompida é de longe o melhor roteiro dentre os indicados. Pena que não será dessa vez.

RomaAlfonso Cuarón

Alfonso Cuarón voltou às suas raízes mais intimistas com Roma, e o delicado roteiro acabou sendo lembrado. Não é um texto forte e com muitos diálogos, onde a direção requintada do autor fala muito mais alto do que as palavras ditas nas enxutas interações verbais entre os personagens. Porém, o roteiro de Cuarón merece algum crédito pela sutileza e a forma como retrata alguns de seus temas, especialmente por manter o divórcio do casamento dos empregadores de Cleo algo próximo de uma informação que acompanhamos quase como segredo, de tão discreto e bem trabalhado. No mais, a força de Roma reside em sua direção.

ViceAdam McKay

Após sair vitorioso na categoria de Roteiro Adaptado com A Grande Aposta, Adam McKay é aclamado novamente, agora pelo roteiro de Vice. Para um texto escrito literalmente do nada, é de se admirar o nítido trabalho de pesquisa de McKay, que inclusive usa isso a seu favor para algumas boas piadas; como quando faz Dick Cheney recitar Shakespeare por afirmar não saber como teria sido sua reação a um determinado evento na vida real. Os diálogos também trazem momentos inspirados, mas o grande pecado do roteiro fica na ausência de uma estrutura sólida e compreensível, além das doses saturadíssimas de seu sarcasmo óbvio e previsível. Uma queda após A Grande Aposta, mas ainda é possível enxergar vislumbres do bom McKay aqui.

Quem VAI ganhar: A Favorita
Quem PODE ganhar: Green Book: O Guia
Quem DEVERIA ganhar: Fé Corrompida

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

The Ballad of Buster Scruggs – Joel e Ethan Coen, alguns segmentos baseados em contos de Jack London e Stewart Edward

Uma grande surpresa na categoria, e definitivamente nunca é bom demais ter os célebres irmãos Joel e Ethan Coen lembrados no Oscar – ainda que eles mesmos não deem a mínima. E é uma indicação curiosa, pois apenas dois segmentos da antologia de The Ballad of Buster Scruggs são adaptados de outra mídia (no caso, contos de Jack London e Stewart Edward). Como de praxe em filmes dos Coen, temos situações absurdas povoadas por personagens coloridos e extremamente divertidos, dotados também da habilidade surreal da dupla em inserir filosofia e metalinguagem para os temas mais improváveis; com destaque para “The Mortal Remains” e “The Gal Who Got Rattled”. Até mesmo “Meal Ticket”, onde não temos nenhuma interação verbal entre os dois protagonistas, o roteiro é capaz de estabelecer uma relação sólida e eficiente.

Infiltrado na KlanSpike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott, baseado no livro de Ron Stallworth

A premissa de Infiltrado na Klan definitivamente é das mais improváveis: policial negro infiltrado na Ku Klux Klan, uma das organizações racistas mais controversas dos EUA. Adaptando o livro do policial Ron Stallworth, o texto de Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott serve não só como uma boa reconstituição dos fatos, mas explora com originalidade a fórmula e as convenções do gênero policial, inserindo um humor inesperado e – como esperado tratando-se de Lee – muito espaço para comentário social e discussão sobre racismo. Esse último ponto é particularmente inspirado quando o roteiro traça paralelos entre o racismo na década de 70 com o dos períodos atuais. Não é um trabalho sutil, mas entrega o serviço.

Nasce Uma Estrela – Eric Roth, Bradley Cooper e Will Fetters, baseado nas versões anteriores de 1937, 1954 e 1976

Provando que boas histórias não envelhecem, mas sim se renovam, a quarta versão de Nasce Uma Estrela teve seu roteiro lembrado. O triplamente indicado Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters fazem um sólido trabalho de adaptação ao levar a trama centrada anteriormente no cinema e no rock para o cenário musical do country e do pop. Mas o grande acerto fica no desenvolvimento e interação de seus personagens, seja no arco de Jackson e seu alcoolismo destrutivo, o conflito interno de Abby em abraçar sua própria imagem e a complicada relação com Bobby Jackson. Um trabalho eficiente, e que reforça o valor de uma boa história.

Poderia Me Perdoar? – Nicole Holofcener e Jeff Whitty, baseado no livro de Lee Israel

Em mais um caso de história real que rende uma história simplesmente irresistível, o roteiro de Poderia Me Perdoar? narra a jornada de falsária da escritora Lee Israel. Passando a falsificar documentos e cartas de celebridades do passado, ela encontra um novo prazer na escrita, e também uma nova motivação em sua vida. Uma premissa fantástica, e a dupla Nicole Holofcener e Jeff Whitty acerta ao trazer uma construção sólida – ainda que pautada em uma fórmula bem evidente – e divertidas interações e diálogos entre seus personagens; com destaque para os protagonistas de Melissa McCarthy e Richard E. Grant. O filme ganhou o WGA de Melhor Roteiro Adaptado, então tem boas chances aqui.

Se a Rua Beale FalasseBarry Jenkins, baseado no livro de James Baldwin

Voltando ao Oscar após o sucesso de Moonlight: Sob a Luz do Luar, Barry Jenkins é lembrado pela primorosa adaptação de Se a Rua Beale Falasse, obra que infelizmente não abocanhou merecidas indicações nas categorias centrais do Oscar. Levando a prosa complexa de James Baldwin para os cinemas pela primeira vez, o texto é poético e lírico, não escondendo suas raízes literárias, contando uma história que encanta pelo romance dócil e o retrato honesto e complexo do racismo nos EUA da década de 60. O grande mérito do roteiro de Jenkins reside em sua capacidade de construir um universo pulsante e povoá-lo com diversos personagens multidimensionais que sempre acabam tendo espaço para brilhar individualmente. Um trabalho realmente notável.

Quem VAI ganhar: Infiltrado na Klan
Quem PODE ganhar: Poderia Me Perdoar?
Quem DEVERIA ganhar: Se a Rua Beale Falasse

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