Um dos episódios finais mais aguardados da história da televisão finalmente foi exibido neste domingo (19), e Game of Thrones oficialmente chegou a seu fim pela HBO, que não enfrentava uma boa atmosfera. A última semana foi difícil para aqueles que atendem por D.B. Weiss e David Benioff, que sofrerão reclamações, críticas e até petições para refazer a série após o polêmico episódio da semana passada, “The Bells”. Algumas críticas foram justas, e outras simplesmente absurdas, mas a questão é que nada podia garantir que Game of Thrones tivesse um final que agradasse a todos os fãs. Essa garantia nunca existiu, na verdade.

Com tudo o que a série tinha em mãos, o episódio final de Game of Thrones chega para tentar amarrar todas as pontas soltas deixadas após o episódio anterior, iniciando-se logo após suas devastadoras consequências – e agora com Weiss e Benioff creditados não apenas no roteiro, mas também dividindo a direção do episódio, algo inédito na série até então.

E se a dupla pode apresentar deficiências no roteiro, é preciso reconhecer que os dois sabem como prolongar e sustentar tensão em Game of Thrones. Os primeiros planos do episódio apostam em longas caminhadas de Tyrion pelas ruínas de Porto Real, sendo hábeis ao construir uma atmosfera silenciosa e que abraça o quieto terror de um pós-apocalipse.


A cena em que Tyrion vasculha os escombros da Fortaleza Real para encontrar os corpos de Jaime e Cersei é fantástica, tanto pela performance sensacional de Peter Dinklage quanto pelas imagens fortes de Weiss e Benioff, que não escondem o paralelo com os ataques de 11 de Setembro em sua composição – permitindo também que Ramin Djawadi traga uma variação melancólica eficaz de The Rains of Castamere.

Tyrion no final de Game of Thrones

O mesmo se aplica à caminhada de Daenerys para o Trono de Ferro, que jaz intocado ainda que o salão tenha sido quase inteiro destruído. Sim, é um episódio de Game of Thrones que parece composto principalmente de personagens andando dramaticamente de um ponto a outro, mas a direção realmente faz valer o investimento. A beleza das composições e enquadramentos nessa tomadas, que incluem o toque da Mãe dos Dragões nas espadas petrificadas e o encantamento ao finalmente vê-lo são todos bem executados, assim como o subsequente diálogo com Jon Snow.

É quando Weiss e Benioff fazem uma escolha que haviam antecipado com pressa nos últimos episódios: a morte de Daenerys Targaryen. O ato veio justamente pelas mãos de Jon, e confesso que – caso o romance insípido do casal tivesse sido bem desenvolvido e construído – o fato de Snow matar a mulher que ama teria sido comovente. Tanto pela direção quanto pelo roteiro, que passa seus primeiros 30 minutos tentando justificar a morte da rainha – e o faz também com um magnífico plano em que as asas de Drogon batem atrás de Daenerys, quase transformando-a em uma figura demoníaca. O fato da cena acabar com Drogon queimando o Trono de Ferro é altamente simbólico, e também de uma delicadeza satisfatória, com o trabalho de efeitos visuais vendendo com realismo e afeto o nítido coração partido do último dragão vivo.

Então, finalmente, Game of Thrones resolve a grande dúvida: quem é o novo Rei ou Rainha dos Sete Reinos, o novo governante de Westeros? A resposta definitivamente veio como surpresa após Bran Stark ser apontado como o novo governante. Apesar de ser uma cena mal apresentada, com todos os personagens sobreviventes simplesmente sentados em uma roda para decidir o futuro, o texto de Weiss e Benioff foi excelente para justificar a escolha do jovem Stark, quase quebrando a quarta parede para afirmar que o que une o mundo e as pessoas são histórias, e que Bran é a representação desse elo graças à sua conexão com o passado e o futuro. Confesso que a ideia de Bran governar havia me soado besta de início, o discurso de Tyrion foi forte o bastante, e justifica-se na ideia de que um homem “normal” não seria capaz de ser o Rei certo. 

Em seus momentos finais, Game of Thrones traz a esperada sequência de montagem, colocando um ponto final para todos os personagens. A ideia de Jon Snow ser enviado para servir à Patrulha da Noite é uma ótima rima com o começo da série, e também pela ideia de termos um Targaryen perdido em meio aos Patrulheiros da Muralha – tal como Meistre Aemon nas primeiras temporadas da série. A promessa de Arya em explorar o que existe além de Westeros é empolgante e garantiria um derivado por si só, enquanto Sansa se estabelece como líder do Norte.

O conselho do Rei montado ao final, com Tyrion, Sam, Brienne, Bronn, Davos e Podrick servindo a Bran, é desde já uma das coisas mais empolgantes da série, e promete um caminho otimista e divertido para as histórias que nunca veremos – e o quão poético é o fato de que o livro contando os eventos após a morte de Robert Baratheon seja justamente Crônicas de Gelo e Fogo? Uma piadinha óbvia, mas divertida.

Mesmo com todos os erros pelo caminho e a pressa em passar por pontos complexos de história, não posso dizer que o final de Game of Thrones não foi satisfatório. Me surpreendi por suas decisões e me emocionei pelos belos desfechos de alguns de seus personagens principais. Pode não ter sido o melhor percurso, mas ao menos Game of Thrones definitivamente terminou na nota certa, e sua história viverá para sempre.